Fala-se em hora do adeus

Cumprida sua missão destrutiva, talvez Weintraub já possa voltar para casa

O ministro Weintraub, com o secretário Nadalim (à direita dele), o diretor estratégico Sallenave e o ursinho: leitura em família. Foto: (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Texto publicado em 13/12/2019

Em meio a rumores de que as férias de que começará a desfrutar a partir de segunda-feira, 16/12, serão eternas (ao menos no que diz respeito ao Ministério da Educação), Abraham Weintraub continuou nesta semana a fazer anúncios. Um deles deu conta de que pela maior revolução vista na educação brasileira nos últimos 20 anos.

Nada relacionado à erradicação do analfabetismo, ou à decisão de fazer com que os professores da educação básica tenham dedicação exclusiva e salário compatível. A revolução, feita de pequenos anúncios ao longo das últimas semanas – como aquele que prevê melhorar a avaliação das instituições de ensino superior que emprestarem suas instalações a alunos do ensino fundamental – , teve suas armas totalmente desembainhadas com a comunicação de que o MEC mandará texto próprio sobre o Fundeb ao Poder Legislativo.

O mesmo Fundeb, Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica, cujo término está previsto para o final de 2020 e vem sendo discutido desde 2015 na Câmera dos Deputados, após a apresentação da Proposta de Emenda Constitucional 15/2015, da deputada Raquel Muniz (PSD/MG). Outra PEC corre no Senado, e a relatora da 15/15, Dorinha Rezende (DEM/TO), vem tentando unificar os textos.

Enquanto isso, o governo busca “autoria” por meio do texto próprio, cuja novidade será ofertar o aumento de 1 ponto percentual ao ano, durante cinco anos, na contribuição da União ao Fundeb, passando de 10 a 15%. Já o substitutivo de Dorinha Rezende propõe aumento de 2,5 pontos percentuais ao ano até que a contribuição da União atinja 40% do fundo.

Segundo a assessoria do ministério, “O modelo desenhado pelo MEC leva em consideração a responsabilidade fiscal com as contas públicas ao mesmo tempo que garante um piso, tecnicamente recomendável, para garantir a boa educação de uma criança”. No texto, não há explicações que digam qual o piso “tecnicamente recomendável para garantir a boa educação de uma criança”.

Entre as medidas da “revolução” mencionam-se ainda o projeto Future-se, voltado ao ensino superior, o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares, o Novos Caminhos (para aumento das matrículas na educação profissional tecnológica), o Educação Conectada e o Conta pra mim (de estímulo à leitura em família). Este último é voltado ao combate ao analfabetismo. Só não conta como os quase 30 milhões de analfabetos farão para ler.

Com esse conjunto de ações e pérolas do tipo “esse ministério deveria chamar ministério do ensino, e não da educação”, a ausência de Weintraub será calorosamente aplaudida.

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Curtas

  •   Teve início em 29/06  a websérie “Caminhos do Devir – Volta às aulas pós-Covid-19”, com o debate sobre “Como aplicar a gestão de crises para planejar a volta às aulas de forma segura”. Os educadores e sócio-fundadores da Devir Projetos Educacionais, Luis Laurelli e Eloisa Ponzio, além do consultor Flávio Schmidt, consultor em gestão de crises do Grupo Trama Comunicação, analisaram as estratégias, cuidados e precauções para garantir uma volta às aulas que possa assegurar a saúde de professores e crianças e a tranquilidade das famílias. A conversa teve a mediação do editor do Trem das Letras, Rubem Barros. O encontro marcou também o lançamento do e-book “A Covid-19 nas escolas e o caminho para a retomada do presencial”, disponível para download, que pontua sobre os passos da retomada.  Texto publicado em 25/06/2020

  • O ano de 2020 marca o final do mandato de 12 dos 24 conselheiros do CNE, o Conselho Nacional de Educação. A primeira lista com sugestões de substitutos, deixada pelo ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, provavelmente na correria a caminho do aeroporto, era composta principalmente por olavistas. Gerou resistência até dentro do próprio governo Bolsonaro. Diante do freio, puxado pelos militares, o ministro interino, Antonio Paulo Vogel de Medeiros, está fazendo uma nova rodada de discussão para a escolha de outros nomes.  A Casa Civil será um dos principais interlocutores para definir a lista final. Se o padrão das escolhas continuar o mesmo de outras áreas, é provável que as escolas cívico-militares ganhem fôlego inaudito. Texto publicado em 25/06/2020

  • Além do Fundeb, é preciso ficar de olho na possível votação da Medida Provisória 934, que estabelece normas de excepcionalidade para a educação básica e superior em 2020. O relatório da deputada Luísa Canziani (PTB/PR) manteve entre as emendas que devem ir a plenário a liberação da obrigatoriedade do cumprimento das 800 horas para a educação infantil e de oferta da educação a distância na mesma etapa. A relatora deixa a decisão nas mãos dos gestores municipais. Além de contrariar todas as evidências científicas e pedagógicas que enfatizam os prejuízos da educação a distância para as crianças de até 5 anos, a medida pode significar a abertura da porteira para os grupos privados que atuam no negócio da educação a distância. Com as redes de ensino sufocadas pela falta de dinheiro, com aumento das despesas por causa da pandemia e queda na arrecadação de impostos de até 24%, impactando diretamente no Fundeb, principal fonte de recursos para a educação básica pública, a EAD pode ser vista por muitos como solução milagrosa. Mas será apenas um instrumento para cumprir a obrigação legal de oferta de ensino. E inadequado, no caso da educação infantil. É preciso ver o que falará mais alto, se o rigor burocrático ou o bom senso. Texto publicado em 25/06/2020

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