Formação específica melhora educação infantil

A compreensão de aspectos do desenvolvimento das crianças de 0 a 5 anos tem feito com que educadores tenham interações mais ricas com crianças

Foto: Freepik

Texto publicado em 31/10/2019

Mulheres são a esmagadora maioria entre os trabalhadores de creches e pré-escolas; boa parte das pessoas que trabalham nessas etapas não têm curso superior, mas aqueles que possuem formação específica para o exercício de suas funções com crianças costumam estar à frente de postos de maior responsabilidade e dizem estar se adaptando mais a práticas que visam o desenvolvimento infantil.

Esses são alguns resultados da pesquisa Talis Providing Quality Early Childhood Education and Care, divulgada na última semana pela OCDE. Realizado em 2018, o levantamento aferiu práticas de nove países na pré-escola (4-5 anos) e quatro na fase equivalente às creches (0-3 anos). Segundo a entidade, é o primeiro levantamento do gênero feito tendo como foco a força de trabalho à frente de escolas e instituições que cuidam da primeira infância.

As conclusões acima fazem parte do capítulo 3 do relatório, dedicado a professores, assistentes e diretores. Entre os países pesquisados na pré-escola estão: Dinamarca, Alemanha, Israel, Noruega, Chile, Islândia, Japão, Coreia do Sul e Turquia. Os quatro primeiros também tiveram suas creches avaliadas. O levantamento, que pode ser lido na íntegra na internet, traz ainda dados sobre as interações entre crianças, professores, assistentes e líderes ou diretores (estes profissionais formando o staff) e as famílias ou responsáveis dos alunos; questões de estrutura das instituições de educação e cuidados; temas ligados ao financiamento da educação na primeira infância.

O perfil de quem trabalha

A prevalência feminina é absoluta nas duas etapas da educação infantil: em média são 95% de mulheres trabalhando em pré-escolas e 96% em creches. O campo profissional voltado à primeira infância é majoritariamente formado por profissionais com algum grau de educação pós-secundária, ou seja, alguma formação superior, seja ela profissional, técnica, college – os novos tipos de alternativas à universidade tradicional – ou a graduação normal.

Os índices mais altos nesse sentido foram de Japão, Coreia do Sul e Turquia. A formação específica para o trabalho com crianças não é universal. Os índices variam de 64% dos profissionais, na Islândia, a 94% entre os alemães.

Os profissionais mais qualificados, em especial aqueles que tiveram formação específica para o trabalho com crianças e detêm os cargos de mais responsabilidade nas instituições, reportaram estar adaptando suas práticas educativas tendo em vista o aprendizado das crianças, seu desenvolvimento e bem-estar. A ideia de bem-estar aí envolve atender os interesses demonstrados pelas crianças em termos de conhecimento e respeitar suas individualidades.

Momento de virada e carência nas necessidades especiais

As atividades formativas realizadas atualmente para o desenvolvimento profissional são vistas como um dos caminhos mais promissores para a promoção de interações de qualidade entre educadores e crianças, estimulando os professores e assistentes a conhecerem inovações pedagógicas e a buscar suporte para suas carreiras. Em todos os países pesquisados, a maioria dos profissionais (75%) participou de atividades nos doze meses anteriores à pesquisa, com taxas relevantemente altas na Coreia e na Noruega. Essas atividades frequentemente têm tratado de questões do desenvolvimento infantil.

Esse achado corrobora o que muitos educadores ligados à formulação de políticas públicas no Brasil têm apontado: é um momento em que muitos países estão buscando um salto em termos de oferta de qualidade na educação infantil. Ficar para trás pode significar condenar as futuras gerações a mais décadas de atraso.

 Uma demanda recorrente dos educadores é para que haja oferta de formações voltadas à compreensão do desenvolvimento de crianças com necessidades especiais.

EAD presente, mas como oferta complementar de formação continuada

Aquilo que causa arrepios por aqui vai se tornando rotineiro em muitos países. Em alguns daqueles em que foi realizada a pesquisa, cursos e seminários on-line são tidos como importantes componentes para o desenvolvimento profissional de educadores da pré-escola, em especial no Chile, Israel, Coreia e Turquia. Os relatos indicam que as atividades presenciais foram mais relevantes e em maior número, com exceção da Coreia, onde houve equilíbrio entre formações presenciais e a distância. Seria interessante saber que tipo de formação é feita a distância.

Um problema bem conhecido do Brasil não está ausente nos países mais bem situados: a dificuldade de substituição dos profissionais indicados para as formações específicas é apontada como a principal barreira para os funcionários. Há outras barreiras mais específicas para a participação em alguns países. A falta de tempo em função de responsabilidades familiares ficou entre as três maiores causas entre educadores do Japão, Noruega e em Israel, especialmente para aqueles que trabalham em creches.

A importância das lideranças

Recursos insuficientes constituem a maior fonte de estresse para os diretores, seguida de outra também bem conhecida no Brasil: o excesso de trabalho administrativo/burocrático.

Uma tendência que acentua diferenças: os professores e assistentes que mais precisam de formações extras são aqueles que tendem a participar menos desses processos. Em contrapartida, aqueles que têm melhor formação são mais disponíveis para as atividades.

O que vale para as crianças também vale para os profissionais: quando se sentem mais valorizados pela sociedade os professores tendem a estar mais abertos para o uso de práticas mais flexíveis e adaptáveis. Em todos os países, os educadores disseram se sentir mais valorizados por crianças e famílias do que pela sociedade em geral. A satisfação com os salários em geral é baixa, mas compensada pela alta satisfação com o trabalho em si. Japão e Coreia estão abaixo na escala de satisfação com o trabalho em relação aos outros países.  

Por fim, um ponto focado na liderança: os diretores são decisivos na criação de um bom ambiente de trabalho. Em geral, eles tendem a ter alto nível educacional e altas taxas de participação em atividades de desenvolvimento profissional. Ou seja, aqueles que quiserem um coletivo bem-sucedido devem puxar a fila.

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Curtas

  • A infância e a adolescência têm sido alvo de profundas contradições na sociedade brasileira. É o que mostra o relatório comemorativo dos 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, iniciativa do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, divulgado nesta terça, 12/11, em Brasília. Houve melhora acima das expectativas na redução da mortalidade infantil, boa evolução no número de crianças e adolescentes na escola (apesar dos problemas de qualidade) e redução significativa das ocorrências de trabalho infantil. Por outro lado, a violência contra crianças e adolescentes tem números aterradores. Como diz Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, é preciso consolidar os avanços obtidos na primeira infância. Mas “é essencial investir na adolescência e nos territórios mais vulneráveis, revertendo o quadro da violência e salvando vidas”. Texto publicado em 12/11/2019

  • No caso da primeira infância, um dos indicadores que mais evoluiu foi a queda da mortalidade infantil, derivada também do cuidado com as gestantes, mostra o levantamento do Unicef lançado na terça-feira, 12/11. Em 1990, havia 47,1 óbitos por crianças nascidas vivas, número reduzido para 13,4 em 2017. Para a representante do Unicef, Florence Bauer, isso é resultado direto de políticas de saúde que integraram o atendimento, por meio do SUS, e elevaram o acesso das gestantes aos cuidados pré-natal. “É importante salvaguardar e fortalecer esse processo”, salientou. O registro das crianças no primeiro ano de vida cresceu cerca de 50% de 1990 a 2013. Passou de 64% para 95% nesses 23 anos, um forte avanço em termos de cidadania. Outro ponto positivo foi a diminuição do número de crianças em situação de trabalho infantil. Em 1992, o número de crianças e adolescentes dos 5 aos 17 anos nessa situação era de 8,4 milhões, tendo caído para 2,7 milhões em 2015. Texto publicado em 12/11/2019

  • O acesso à escola também evoluiu consideravelmente, segundo o levantamento do Unicef. Se em 1990 ainda tínhamos 20% de crianças entre os 7 e 14 anos fora da escola, esse número agora caiu para 4,7%, e em faixa estendida para os 4 a 17 anos, como consequência da escolarização obrigatória aumentada em 2009. Porém, permanecem ainda fora da escola cerca de 2 milhões de crianças e adolescentes nessa faixa da obrigatoriedade, a grande maioria adolescentes. Outro problema crítico está relacionado à evasão e repetência. Em 2018, 3,5 milhões abandonaram a escola ou foram retidos por baixo aproveitamento. Texto publicado em 12/11/2019

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