Língua Viva, coluna semanal de Luiz Costa Pereira Jr., está no ar

Jornalista e doutor em filosofia e educação pela Feusp inaugura colaboração com artigo em que reflete sobre a linguagem e seu papel em meios aos radicalismos atuais

Foto: Mira DeShazer/Iso Republic

Publicado em 23/10/2019

A partir de hoje, Trem das Letras passa a contar com a colaboração semanal do jornalista e professor Luiz Costa Pereira Júnior, doutor em filosofia e educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e criador da revista Língua Portuguesa, durante dez anos editada por ele e publicada pela Editora Segmento. Sua coluna Língua Viva entra em campo a partir de hoje.

Em cinco desses dez anos, Língua, como era carinhosamente chamada, circulou por 120 mil escolas brasileiras de ensino fundamental 2 e médio. Chegou a professores e alunos como um instrumento didático e formativo capaz de alargar as dimensões culturais de muitos, seguindo a máxima de Ludwig Wittgenstein popularizada pelo dicionário Houaiss: “os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”.

Um breve perfil

Para quem o conhece, o fato de Luiz Costa Pereira Júnior ser carioca de nascimento é um mero acidente. Ainda pequeno, sua família se mudou para Alagoas, estado a que dedica legítima afeição, ainda que sem perder de vista o discernimento sobre as imensas desigualdades, coronelices e a usinagem de patifarias que a nobreza da terra produziu ao longo dos tempos.

Tudo isso parece dar ainda mais sabor ao outro lado da moeda, a malícia no livrar-se do açoite, verdadeiro ou simbólico, que o cidadão comum tem de exercer no dia a dia, algo que se revela de forma especial na linguagem, seja nas Alagoas, no resto do Brasil ou do mundo.

Não me lembro se antes, depois ou num interregno de sua ida para Maceió, Luiz esteve por uma temporada em Quebrangulo, vizinha a Palmeiras dos Índios, no interior das Alagoras. Se não bastasse o nome, já tão sugestivo para ser investigado como fenômeno linguístico (seria um corner, um escanteio do mundo?), resta ainda o fato de ser a cidade natal de Graciliano Ramos, mestre da palavra concisa e bem trabalhada que, de alguma forma, deve tê-lo inspirado a caminhar por esse universo.

Em Alagoas, Luiz fez um pouco de tudo. Conheceu o inferno das usinas de cana ainda adolescente, quando viu mais claramente como o mundo se dividia na visão da elite agreste. Foi arrimo de família após a morte precoce do pai. Dividiu a faculdade de jornalismo com o trabalho em um hotel, sobrando poucas horas para o sono. Ele não diz, mas desconfio que se trancava em algum duto ou passagem oculta para dormir um pouco mais e assim sobreviver ao cansaço.

Na São Paulo que o recebeu no início dos anos 90, o acolhimento veio recheado de um frio que não o deixava sentar-se no vaso sanitário, gelo que lhe chegava aos intestinos. Com o tempo e a simpatia, foi esquentando os convívios: na redação de O Estado de S.Paulo (onde aprendeu com a atriz Suzana Vieira que o entrevistador deve, sempre, melhorar a fala do entrevistado); nas classes da Cásper Líbero (quando mostrou ao jornalista Aloysio Biondi que ele, Biondi, sabia bem mais do que pensava que sabia); na redação da Revista Língua, na Editora Segmento, onde, em função da redução do quadro de funcionários, instituiu na pauta de reivindicações trabalhistas o direito de enfartar.

Foi aí, como editor da Língua, criação sua que durante dez anos esteve nas graças de jornalistas, editores, revisores, professores, retóricos e oradores – arcadistas, parnasianos, modernos e pós-modernos – que criou e redigiu a maior parte de seu repertório. De uma publicação que, pensava-se (não ele), seria um guia instrumental para o uso do bom português, da clareza etc. etc. e tal, surgiu uma revista pronta a revirar usos e costumes por meio do que é dito, a mostrar como os jeitos de falar denunciam as formas de pensar, agir e de ser, que atrelava a cultura à expressão verbal (obviedade), mas desvelando o que é saber e o que é poder, mostrando origens nossas por meio de nossos discursos e não discursos.

Enfim, mergulhou no grande tema da filosofia no século 20, a linguagem. Que metamorfoseou nossa forma de ver o mundo com essa mediação simbólica que nos distingue (ainda, pelo menos) de outros e de nós mesmos. Em meio a isso tudo, tornou-se doutor pela USP, vasculhando nas requintadas letras de Paulinho da Viola as influências e inquietações diversas que, trazidas ao cotidiano da gente simples, dão densidade ao universo poético de um de nossos maiores sambistas.

A partir de agora, Trem das Letras passa a contar com textos os mais diversos desse diálogo entre filosofia e linguagem, entre gêneros literários diversos como meios para expressão de ideias, ou, espero eu cá, como análise da palavra de outros, sejam elas – as análises – literárias, subsidiárias, temerárias ou fragmentárias.

Uma vez por semana, Luiz Costa Pereira Júnior nos brindará com uma colaboração. Espero que os ocupantes deste Trem gostem tanto quanto eu do que terão oportunidade de ler aqui.

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Curtas

  • A infância e a adolescência têm sido alvo de profundas contradições na sociedade brasileira. É o que mostra o relatório comemorativo dos 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, iniciativa do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, divulgado nesta terça, 12/11, em Brasília. Houve melhora acima das expectativas na redução da mortalidade infantil, boa evolução no número de crianças e adolescentes na escola (apesar dos problemas de qualidade) e redução significativa das ocorrências de trabalho infantil. Por outro lado, a violência contra crianças e adolescentes tem números aterradores. Como diz Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, é preciso consolidar os avanços obtidos na primeira infância. Mas “é essencial investir na adolescência e nos territórios mais vulneráveis, revertendo o quadro da violência e salvando vidas”. Texto publicado em 12/11/2019

  • No caso da primeira infância, um dos indicadores que mais evoluiu foi a queda da mortalidade infantil, derivada também do cuidado com as gestantes, mostra o levantamento do Unicef lançado na terça-feira, 12/11. Em 1990, havia 47,1 óbitos por crianças nascidas vivas, número reduzido para 13,4 em 2017. Para a representante do Unicef, Florence Bauer, isso é resultado direto de políticas de saúde que integraram o atendimento, por meio do SUS, e elevaram o acesso das gestantes aos cuidados pré-natal. “É importante salvaguardar e fortalecer esse processo”, salientou. O registro das crianças no primeiro ano de vida cresceu cerca de 50% de 1990 a 2013. Passou de 64% para 95% nesses 23 anos, um forte avanço em termos de cidadania. Outro ponto positivo foi a diminuição do número de crianças em situação de trabalho infantil. Em 1992, o número de crianças e adolescentes dos 5 aos 17 anos nessa situação era de 8,4 milhões, tendo caído para 2,7 milhões em 2015. Texto publicado em 12/11/2019

  • O acesso à escola também evoluiu consideravelmente, segundo o levantamento do Unicef. Se em 1990 ainda tínhamos 20% de crianças entre os 7 e 14 anos fora da escola, esse número agora caiu para 4,7%, e em faixa estendida para os 4 a 17 anos, como consequência da escolarização obrigatória aumentada em 2009. Porém, permanecem ainda fora da escola cerca de 2 milhões de crianças e adolescentes nessa faixa da obrigatoriedade, a grande maioria adolescentes. Outro problema crítico está relacionado à evasão e repetência. Em 2018, 3,5 milhões abandonaram a escola ou foram retidos por baixo aproveitamento. Texto publicado em 12/11/2019

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