Rachel Cusk e suas flechadas certeiras

Esboço, livro de escritora canadense radicada na Inglaterra, traz narrativa sinuosa, com momentos de suspensão e grande precisão do olhar

Imagem: Seacoast Sage/Iso Republic

Publicado em 28/10/2019

Publicado em 2019 pela Editora Todavia, com tradução de Fernanda Abreu, Esboço é o pontapé inicial de uma trilogia escrita pela canadense Rachel Cusk. Residente na Inglaterra, nascida em 1967, Cusk já tinha um livro traduzido para o português no Brasil, pela Companhia das Letras, em 2011: As variações Bradshaw. Já era então aclamada na Inglaterra, onde Arlington Park (2007) havia feito sucesso. Sua estreia literária já vai longe: aconteceu em 1993, com o romance Saving Agnes.

Provavelmente, o sucesso que conseguiu em língua inglesa não se reproduziu aqui num primeiro momento. Em 2018, publicou na revista piauí Saldo final, texto em que reflete sobre sua separação, tema que volta à baila em Esboço. Este escriba a desconhecia por completo. As poucas informações desta introdução foram ajuntadas na famosa consulta à internet. Antes de escrever meu texto sobre o livro, evitei ter contato com qualquer referência factual ou crítica que me falasse dela mais do que eu sabia até aquele instante. Os comentários entusiasmados sobre Esboço e os livros seguintes que conformam uma trilogia parecem ter significado um salto qualitativo em sua obra, imagino.

Estando ou não correta essa suposição, a análise que você lerá a seguir foi feita meio às cegas. O fato de não estar de posse de referência nenhuma além das que o próprio livro traz – e daquilo que me falou a Cida, grande responsável pelo fato de eu ter chegado ao texto de Cusk – proporcionou uma liberdade ímpar e igual responsabilidade. Assim, bobagem ou acerto, o que vem a seguir não tem outro culpado que não seja o signatário.

Um juízo sobre a obra

Um difícil porém desafiador exercício crítico é o de analisar uma obra praticamente sem referências de contexto externas a ela. É praticamente o caso do que você lerá a partir deste parágrafo sobre Esboço, livro de Rachel Cusk publicado em 2014, dando início a uma trilogia que inclui Trânsito (2016) e Kudos (2018), informação extraída da orelha que, cumprindo sua função de eloquência, diz que o conjunto virá a ser lembrado como “uma das grandes conquistas do nosso tempo”.

Por sorte, não dei muita bola a essa grandiloquência, o que talvez gerasse expectativa excessiva. Escolhi o livro por sugestão da Cida, gerente da Livraria da Vila da Fradique Coutinho, em São Paulo, alguém que trabalha com livros e gosta de ler. Sempre que vou lá ela me dá sugestões. Dessa vez disse que havia gostado da autora, que seus relatos, ainda que talvez parecessem inconclusos, faziam pensar, eram instigantes. Confiei na opinião dela.

De imediato, associei o tipo de narrativa a um dos autores e livros de minha preferência: o Antonio Tabucchi de Noturno indiano (na versão da Cosac Naify, tradução de Wander Mello Miranda), que tenho como uma pequena obra-prima. A aproximação se deve ao fato de Cida ter dito que a autora pulava de uma personagem a outra, tecendo perfis. É o que faz Tabucchi em Noturno, quando o personagem central volta à Índia em busca de alguém que conheceu no passado e vai seguindo rastros, passando por lugares onde já esteve. Encontra pessoas a quem o narrador descreve com um poder de síntese no olhar, no achar uma chave de entendimento daquele sobre quem fala, numa espécie de revelação. Como um massagista que escorre os dedos lentamente pela sua pele em busca do centro de uma dor que você sente, mas não sabe localizar direito. E ele encontra.

Rachel Cusk nos faz entrar na atmosfera com um pouco mais de vagar. Sua narrativa em primeira pessoa nos coloca de início em um avião, num voo de Londres para Atenas, na Grécia, para onde a narradora está indo ministrar um curso sobre criação literária. Ela é uma escritora, separada do marido, independente, e uma das coisas que faz para manter essa independência é pegar esses trabalhos que, se não são o sonho de nenhum escritor, são melhores do que a vida numa repartição pública, por exemplo, com a qual nosso Carlos Drummond de Andrade dividiu os seus poemas.

Para ser mais preciso, Rachel/narradora começa por relembrar que antes do voo havia almoçado com um bilionário com “histórico liberal”, como tinham prometido a ela. E sobre quem ela chegou à conclusão de que queria mesmo, no fundo, era se tornar escritor para contar sua magnífica ascensão.

Mas logo a atenção recai sobre “o vizinho”, o cara que está sentado na poltrona do lado durante o voo. Na primeira oportunidade, ele já entronizou um papo, com a tradicional curiosidade de “o que você está indo fazer em Atenas?”. Aos poucos, durante a conversa dos dois, dividindo a narrativa entre o descritivo e o reflexivo, vamos sabendo melhor quem é o sujeito, a história de seus casamentos fracassados, da primeira mulher de quem ele sentiu falta quando estava com a segunda, desta que maltratava seu filho do primeiro casamento. E ficamos sabendo também que a narradora tem filhos do ex-marido e lembranças que são bem diferentes do que o vizinho projeta ao tentar descobri-las.

É uma narrativa bem construída, os personagens parecem verossímeis – claro que algumas coisas que contam parecem mentiras, mas estas também são bastante verossímeis. Mas já ao fim deste primeiro capítulo, a narradora consegue nos brindar com aquilo que encontraremos em alguns trechos deste Esboço – e que parece, mais do que o resto, fazer com que a obra valha sua leitura.

São pequenas sínteses sobre alguns temas, vivências ou ideias, com poder de resumir algo que, em nossas vidas pessoais, levamos anos para descobrir. É como se, a partir de um estalo emocional ou mental, pudéssemos aplainar terrenos que sempre resistiram à nossa ação ou visão. É, em menor escala, algo similar à presença de escapes ensaísticos, tal como o norueguês Karl Owe Knausgård nos traz ao longo de seu quilométrico (e ainda inacabado em língua portuguesa) Minha luta, série biográfica publicada por aqui ao longo desta década pela Companhia das Letras (tradução de Guilherme da Silva Braga).

Os exemplos dirão mais do que eu possa relatar aqui. O vizinho de poltrona relata, num dado momento, que achou que havia errado ao se separar da primeira mulher. Tentou falar isso a ela, mas ocorreu com ele o mesmo que ela tinha sofrido quando tentou vê-lo, logo após a separação. Neste segundo momento, porém, os sinais haviam sido trocados: era ela quem estava indisponível, como ele estivera para ela assim que se separaram. No tempo em que ele relata isso, o momento atual, eles já haviam voltado a se falar com alguma regularidade, e não era preciso um contato muito extenso para que ela o irritasse, o que provavelmente também teria acontecido se ele a houvesse encontrado quando a procurou lá atrás, no passado. Mas isso não extinguia a sensação de estranhamento pelo fato de que os dois envelheceram separados, depois de terem ajudado um a moldar o outro. É aí que a narradora nos conta como ele se sente ao falar com a ex-mulher, que tipo de sensação o domina ao pensar no passado.

“É como passar em frente a uma casa onde se morou: o fato de ela ainda existir, tão concreta, faz tudo o que aconteceu desde então parecer de algum modo imaterial. Sem estrutura, os acontecimentos são irreais: a realidade da sua mulher, assim como a realidade da casa era estrutural, determinante. Tinha limites, nos quais ele esbarra ao ouvir a mulher ao telefone. No entanto, a vida sem limites tem sido exaustiva, tem sido uma longa história de despesas concretas e emocionais, como trinta anos morando numa sucessão de hotéis. O que lhe custou foi a sensação de impermanência, de não ter um lar. Ele gastou rios de dinheiro para se livrar desse sentimento, para pôr um teto acima da própria cabeça. E o tempo todo vê ao longe o seu lar – a sua mulher – parados ali, essencialmente intactos, mas agora pertencentes a outras pessoas.”

O trecho resume magistralmente uma questão profunda da psicologia e da filosofia, que é a sobreposição e a importância do indivíduo e sua morada, o quanto o lugar onde vivemos nos representa simbolicamente e se confunde conosco. A esse respeito, Gaston Bachelard, em A poética do espaço, nos lega um trecho especialmente bonito:

As lembranças do mundo exterior nunca hão de ter a mesma tonalidade das lembranças da casa. Evocando as lembranças da casa, adicionamos valores de sonho. Nunca somos verdadeiros historiadores; somos sempre um pouco poetas, e nossa emoção talvez não expresse mais que a poesia perdida.” (Martins Fontes, 2005, tradução de Antonio de Pádua Danezi).

Os acúmulos da linguagem

Outra personagem que interage com a narradora é Anne, com quem ela encontra logo pela manhã no apartamento em que está hospedada. Anne veio para dar aulas para a próxima turma do curso para o qual a nossa narradora foi escalada. Ao contrário desta, é a primeira vez que ela está em Atenas. É uma pessoa nervosa – é ela quem diz isso -, daquelas que se tivéssemos de representá-la em uma peça teatral provavelmente o faríamos como alguém que move as mãos constantemente, sem saber onde colocá-las. Sua apreensão de momento é com a língua. Ela não fala grego e não sabe como fará para se expressar para os alunos, que irão escrever em inglês. Como falante do idioma dominante, ela relata – aqui, como em vários outros trechos, inclusive o anterior, a narrativa é feita em discurso indireto livre – o que pensa sobre a expressão em uma língua que não dominamos bem:

“A gente quase sente vergonha do jeito como as pessoas são forçadas a usar o inglês, do quanto de si mesmas precisa ser abandonado nessa transição, como as pessoas a quem se diz para deixar suas casas e levar consigo apenas uns poucos objetos essenciais. No entanto, havia também nessa imagem uma pureza que a atraía, pois ela era repleta de possibilidades para se autoinventar. Libertar-se dos acúmulos, tanto mentais quanto verbais, era de certo modo uma perspectiva atraente; isso até você se lembrar de algo que necessitava e que tivera de deixar para trás. Ela, por exemplo, constatava que não conseguia fazer piadas quando estava falando outra língua; em inglês, era de modo geral uma pessoa com senso de humor, mas em espanhol, por exemplo – que em determinado momento chegou a falar bastante bem –, não. Então imaginava que não fosse tanto uma questão de tradução, e sim de adaptação. A personalidade era forçada a se adaptar às suas novas circunstâncias linguísticas, a se criar outra vez; era um pensamento interessante. Havia um poema de Beckett, falou, que ele tinha escrito duas vezes, uma em francês, outra em inglês, como para provar que o fato de ser bilíngue o tornava duas pessoas, e que a barreira da língua era em última instância instransponível.”

Novamente a questão da identidade, agora associada à linguagem. É como dizer que não somos aquilo que não conseguimos expressar. E que nos tornamos outros quando obrigados a mudar de ambiente, de cultura. Coincide com um depoimento da escritora Rosiska Darcy de Oliveira em Elogio da liberdade, documentário dirigido por Bianca Comparato e lançado em 2019. Nele, Rosiska, membro da Academia Brasileira de Letras, identificada com o feminismo e exilada durante a ditadura (quando seu marido, diplomata de carreira, foi forçado a voltar ao Brasil para ser preso), fala de uma sensação bastante similar a essa, de sentir que, pelas limitações expressivas, era uma outra pessoa. Mas também ela teve a oportunidade de se remoldar a partir da nova realidade.

Lembrança e esquecimento

Por fim, um último exemplo das digressões reflexivas que constituem o coração da obra de Rachel Cusk. Aqui, o ponto central é um trauma, um episódio de violência vivido no passado, já muito remoído. E a narradora faz a ligação entre história pessoal e coletiva, para nos dar parâmetros do que significa rememorar e esquecer, essas dimensões seletivas que acabam também por nos dizer o que preferimos ser. E, nesse caminho, traz à tona um tema mais do que atual, o da memória desviante.

“Ultimamente, desde o incidente – agora que as coisas tinham ficado mais difíceis de explicar, e que as explicações eram mais duras e mais sombrias –, até mesmo seus amigos mais próximos passaram a lhe dizer que deixasse de falar no assunto, como se ao falar no assunto ela fizesse aquilo continuar a existir. No entanto, se algo não estaria sendo traído, nem que fosse apenas a versão de si mesma que tinha vivido aquilo? Por exemplo, nunca se dizia da história que não se devia falar a respeito; pelo contrário, em termos históricos, silenciar era esquecer, e isso era a coisa que as pessoas mais temiam, quando era a sua própria história que corria o risco de ser esquecida. E a história na verdade era invisível, embora seus momentos continuassem de pé. A construção dos monumentos era metade da história, mas o resto era interpretação. No entanto, havia algo pior que o esquecimento, a saber, a interpretação equivocada, a parcialidade, a apresentação seletiva dos acontecimentos. A verdade precisava ser representada; não podia simplesmente ser deixada para representar a si mesma, como por exemplo ela havia feito com a polícia após o incidente, para em seguida se ver mais ou menos excluída.”

Eis aí um tema em que temos – nós, a espécie humana – nos consumido. Desde a necessidade de contestar o negacionismo que se apresentou logo após o devastador fenômeno do nazismo e do extermínio em massa, passando pelo excesso de memória em detrimento de uma história escrita com método e critérios historiográficos, até o atual momento de deliberada criação de narrativas que tentam obliterar a verdade em prol da manipulação. O trecho dialoga com muitas obras de capital importância: com os depoimentos do documentário Shoah (1985), de Claude Lazmann; com a poesia dilacerante de Alain Resnais, com roteiro de Jean Cayrol, em Noite e neblina (Nuit et brouillard, 1956); com a acurada análise de Jacques Le Goff sobre a construção da história por meio de documentos e monumentos em História e memória (Editora da Unicamp, tradução de Bernardo Leitão); com a reflexão contracorrente de Beatriz Sarlo em Tempo passado – Cultura da memória e guinada subjetiva (Cia das Letras e UFMG, 2007, tradução de Rosa Freire d´Aguiar); e também com Existe democracia sem verdade factual?, e-book de Eugenio Bucci lançado neste ano.

Os trechos acima parecem suficientes para instigar a leitura de Esboço. Se, ao lado de Trânsito e Kudos, ele compõe uma das grandes conquistas literárias do nosso tempo é outra história.

Ficha técnica
Esboço
(Outline, 2014).
De: Rachel Cusk, com tradução de Fernanda Abreu (2019)
Editora Todavia
192 páginas
R$ 59,90. E-book: R$ 39,90

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Curtas

  • A infância e a adolescência têm sido alvo de profundas contradições na sociedade brasileira. É o que mostra o relatório comemorativo dos 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, iniciativa do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, divulgado nesta terça, 12/11, em Brasília. Houve melhora acima das expectativas na redução da mortalidade infantil, boa evolução no número de crianças e adolescentes na escola (apesar dos problemas de qualidade) e redução significativa das ocorrências de trabalho infantil. Por outro lado, a violência contra crianças e adolescentes tem números aterradores. Como diz Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, é preciso consolidar os avanços obtidos na primeira infância. Mas “é essencial investir na adolescência e nos territórios mais vulneráveis, revertendo o quadro da violência e salvando vidas”. Texto publicado em 12/11/2019

  • No caso da primeira infância, um dos indicadores que mais evoluiu foi a queda da mortalidade infantil, derivada também do cuidado com as gestantes, mostra o levantamento do Unicef lançado na terça-feira, 12/11. Em 1990, havia 47,1 óbitos por crianças nascidas vivas, número reduzido para 13,4 em 2017. Para a representante do Unicef, Florence Bauer, isso é resultado direto de políticas de saúde que integraram o atendimento, por meio do SUS, e elevaram o acesso das gestantes aos cuidados pré-natal. “É importante salvaguardar e fortalecer esse processo”, salientou. O registro das crianças no primeiro ano de vida cresceu cerca de 50% de 1990 a 2013. Passou de 64% para 95% nesses 23 anos, um forte avanço em termos de cidadania. Outro ponto positivo foi a diminuição do número de crianças em situação de trabalho infantil. Em 1992, o número de crianças e adolescentes dos 5 aos 17 anos nessa situação era de 8,4 milhões, tendo caído para 2,7 milhões em 2015. Texto publicado em 12/11/2019

  • O acesso à escola também evoluiu consideravelmente, segundo o levantamento do Unicef. Se em 1990 ainda tínhamos 20% de crianças entre os 7 e 14 anos fora da escola, esse número agora caiu para 4,7%, e em faixa estendida para os 4 a 17 anos, como consequência da escolarização obrigatória aumentada em 2009. Porém, permanecem ainda fora da escola cerca de 2 milhões de crianças e adolescentes nessa faixa da obrigatoriedade, a grande maioria adolescentes. Outro problema crítico está relacionado à evasão e repetência. Em 2018, 3,5 milhões abandonaram a escola ou foram retidos por baixo aproveitamento. Texto publicado em 12/11/2019

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