Anitta x Bruna é versão atual de Marlene x Emilinha

O pancadão de hoje bebe na fonte das disputas entre as rainhas do rádio, artifício para criar identificação com artistas

Marta Avancini

(Publicado em 19/07/2019)

O que Anitta tem em comum com Emilinha Borba, a maior estrela da Rádio Nacional na virada das décadas de 1940 e 1950? Além de ambas serem mestres na criação de hits e em bater recordes, as carreiras das duas cantoras são marcadas por disputas e rivalidades com outras estrelas, num tipo de dinâmica que mobiliza a atenção e os corações do público.

Se hoje o mundo digital acompanha os movimentos em torno da rivalidade entre Anitta e Bruna Marquezine, naquela época o auditório da Rádio Nacional e as páginas da Revista do Rádio eram palco da disputa entre quem era a maior: Emilinha Borba (1923-2005), cuja madrinha artística era ninguém menos que Carmen Miranda, ou Marlene (1922-2014), sua concorrente que deixou gravadas mais de 4 mil canções.

Na era de ouro do rádio, ser a maior não significava necessariamente vender mais discos, e, sim, mobilizar as paixões mais intensas, ter o fã-clube mais engajado. Ou seja, o que valia – assim como na disputa entre Anitta e Bruna – era o rumor, a repercussão, o disse-me-disse a partir de histórias que não tinham necessariamente um fundo de verdade.

A rivalidade entre Anitta e Bruna teria começado, segundo contou Leo Dias, autor da biografia não autorizada da cantora, em um programa de tevê, na época em que Bruna namorava Neymar e flertou com um affair de Anitta. Ao ver a cena, disse Dias, Anitta não conteve o ímpeto de contá-la ao jogador.  Foi o início de uma rixa que dura até hoje.

São esses traços de rivalidade que aproximam a funkeira da estrela da Rádio Nacional, remetendo a um mecanismo de projeção de artistas recorrente na mídia, que ganhou força no Brasil a partir de meados da década de 1940 e ajudou a modelar a cultura de massa no país, com a consolidação da radiofonia comercial: os concursos de Rainha do Rádio.

Em 1949, aconteceu o concurso que deu o início à disputa que marcou a história da radiofonia – e da comunicação de massa – no Brasil: a rivalidade entre Marlene e Emilinha Borba. Naquela época, a radiofonia comercial já estava consolidada no Brasil. A Rádio Nacional, fundada em 1936, era a líder de audiência após ter sido incorporada ao patrimônio da União pelo presidente Getúlio Vargas em 1940 – a televisão só começaria a operar comercialmente em 1950.

O diferencial da Nacional foi ter implantado um modelo inédito de radiofonia baseado numa programação diversificada (novelas, noticiários, humorísticos e programas de auditório) e num elenco de cantores de primeira linha, que a consolidaria como uma das principais referências culturais do período, especialmente no campo da música.

É nesse cenário que os concorridos concursos de Rainha do Rádio atiçavam corações e mentes, além de movimentarem a cena musical. O concurso foi criado na década de 1930 pela Associação Brasileira de Rádio (ABR) com o objetivo de angariar fundos para a construção de um hospital para radialistas. Linda Batista, cujo centenário de nascimento foi comemorado em 14 de junho, foi a primeira Rainha do Rádio, título que conservou durante 11 anos e transferiu à irmã, Dircinha Batista, em 1948.

Em 1949, era dada como certa a vitória de Emilinha Borba. Ela já era a maior estrela da Rádio Nacional e havia chegado ao primeiro lugar das paradas de sucesso com Chiquita bacana, composição de Braguinha e Alberto Ribeiro. Nos anos 1970, Caetano Veloso comporia e tocaria A filha da Chiquita bacana, em seu disco carnavalesco Muitos carnavais.

No entanto, naquele ano a Cervejaria Antarctica estava lançando um novo produto, o Guaraná Caçula, e apostou no concurso e na imagem de Marlene – uma novata na época -, para divulgar a marca: a empresa deu um cheque em branco para a cantora comprar quantos votos fossem necessários para ganhar o concurso. As cédulas eram oferecidas na Revista do Rádio, que noticiava tudo sobre o universo radiofônico, com destaque para os cantores e as cantoras.

Com o impulso da Antarctica, Marlene acabou eleita com 529.982 votos, desencadeando uma verdadeira guerra entre as duas artistas que se prolongou pelo menos até meados da década de 1950. O palco principal era o auditório da Rádio Nacional. Quando uma se apresentava, a outra não podia participar. Emilinha era a estrela do Programa César de Alencar; Marlene era a rainha do programa Variedades Manoel Barcelos.

As fãs – ou “macacas de auditório”, como eram pejorativamente chamadas – disputavam os ingressos, tomavam o espaço, exaltando as qualidades de sua favorita, desancando, sem dó, a rival. Emilinha, no entanto, era imbatível no quesito popularidade. Em revanche à derrota, a cantora, que só seria eleita Rainha do Rádio em 1953, com 691.515 votos, foi coroada com títulos como Rainha das Rainhas, Rainha dos Corações, Rainha dos Auditórios e Favorita da Marinha.

A disputa ultrapassava os limites dos auditórios e se desdobrava em matérias, colunas, fofocas, especulações na Revista do Rádio, em repertórios e estilos de interpretação marcadamente diferentes. Emilinha configurava-se como a “boa moça”, e Marlene como a mulher moderna, elegante. No entanto, esses papéis não eram estáticos e esquematizados, como sugere uma leitura convencional da radiofonia dos anos 1940 e 1950, que entende os meios de comunicação como propagadores de uma ideologia. (Leia também A cultura de massa: dominação ou sensibilidade?)

Nessa visão, os auditórios e as estrelas do rádio são compreendidos como peças de uma engrenagem maior; neste caso, um projeto de dominação estatal baseado na difusão de valores dominantes, tendo em vista a manutenção do statu quo. Dentro dessa dinâmica, os ídolos e estrelas do rádio são entendidos como transmissores indiretos de padrões morais e éticos dominantes. Assim, a figura pública de Emilinha era tratada como a síntese do conservadorismo e Marlene como seu contraponto, a mulher independente e consciente, que entrou para a história da MPB como a intérprete de Lata d´Água, de Luís Antônio e Jota Júnior, sucesso do Carnaval de 1952 e trilha do filme Tudo azul, de Moacir Fenelon.

Essa leitura, que reduz as estrelas do rádio a personagens construídas para desempenhar um papel dentro de um projeto maior, desconsidera a riqueza e dinâmica envolvidas na constituição de suas figuras públicas, que resultavam de certos processos e os alimentavam de volta, modelando um campo de sensibilidade, afetivo e estético constitutivo daquela época.

Uma dinâmica que se dava em várias esferas simultaneamente – programas de auditório, as revistas especializadas em radiofonia, as publicações voltadas para o público feminino e gerais, no repertório e no estilo de interpretação -, na qual as estrelas não se limitavam a reproduzir valores que se queria impor à sociedade. Diferentemente, elas se configuravam como artistas e mulheres na circulação social de signos associados ao que era ser mulher e estrela no começo da década de 1950 no Brasil.

Em outras palavras, é difícil encaixar as figuras de Emilinha, Marlene e tantas outras estrelas em rótulos estanques e fechados em si, alinhados com um projeto de dominação. Ao mesmo tempo em que Marlene era a mulher moderna, ousada, com ares existencialistas, ela também sonhava em “ter um lar, um companheiro e filhos”, como declarou à Revista do Rádio em 1951, pouco antes de se casar com Luiz Delfino.

Emilinha, por sua vez, foi mãe antes de se casar: em 1953, adotou, em meio a boatos de que estaria grávida, um menino durante uma turnê no Rio Grande do Sul, que recebeu o nome de Arthur Emílio, junção de seu nome e o do namorado, Arthur Costa Filho, com quem se casou em 1956. A dúvida pairava no ar, ao mesmo tempo em que as fãs comemoravam a chegada do filho de Emilinha.

As notícias, os boatos, as suspeitas, as declarações, as fotografias da intimidade (muitas vezes, posadas), as manifestações das fãs, as marchinhas de Carnaval, os agudos que expressavam a dor da mulher nos sambas-canção eram, todos, elementos que, sem uma hierarquia de valor, constituíam e alimentavam aquele campo cultural e de sensibilidade. Fenômeno parecido se repetiria na televisão durante os festivais dos anos 1960 (leia texto: Música com heróis de luta livre)

Assim, não é essencial identificar se a rivalidade – entre Emilinha e Marlene ou entre Anitta e Bruna Marquezine – é forjada ou em que medida ela se assenta em fatos verdadeiros. Ela é, sim, uma estratégia, provavelmente calculada, mas nem por isso deixa de desempenhar um papel em um dado campo cultural. E é justamente nessa dimensão que reside seu valor e relevância.

 

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Curtas

  • A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) lançou nesta quarta-feira, 12/02, manifesto em apoio à jornalista Patrícia Campos Mello, repórter da Folha de S.Paulo que, em 2018, fez uma série de reportagens denunciando disparos em massa no Whatsapp durante as eleições presidenciais daquele ano. Jornalistas e não jornalistas que quiserem assinar o manifesto da Abraji podem fazê-lo a partir de link no site da Associação. Em sessão da CPI das Fake News, no Congresso Nacional, a jornalista foi vítima de ataques e acusações do depoente Hans River do Rio Nascimento, que trabalhava então numa empresa que promovia os disparos e disse à época que teria muita coisa a denunciar. Ele foi uma das fontes da reportagem Empresários bancam campanha contra o PT pelo Whatsapp, publicada na Folha de S.Paulo em 18 de outubro de 2018. Na CPI, Nascimento disse que a repórter o havia assediado para obter informações sobre os disparos. Na edição de hoje, a Folha de S.Paulo aponta uma série de declarações mentirosas de Nascimento, incluindo o suposto assédio, mostrando cópias de mensagens de Whatsapp trocadas entre ambos. Em decorrência da série de reportagens, Patrícia Campos Mello já havia sido ameaçada à época por seguidores de Jair Bolsonaro. A matéria da jornalista e os textos que se seguiram ao inicial, no entanto, fizeram de Patrícia Campos Mello a jornalista mais premiada de 2019, segundo levantamento do Portal Jornalistas e Cia. Nascimento ressurgiu do anonimato agora, com o palco que a CPI lhe deu. Como maior atributo, continua tendo pleonasmo bilíngue de seu nome.   Texto publicado em 12/02/2020  

  • Depois de seis anos à frente da Diretoria de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, também membro do Conselho Nacional de Educação, está deixando a entidade do terceiro setor. A decisão se deve à aceitação do convite do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto para assumir a cátedra Sérgio Henrique Ferreira, que terá como objetivo contribuir para a melhoria da educação em cidades de médio porte. Segundo Antônio José da Costa Filho, coordenador do IEA-RP e professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP/Ribeirão, declarou ao jornal da USP no lançamento da cátedra, em dezembro, essa contribuição deverá se dar primeiro na cidade de Ribeirão Preto, para depois ser estendida a outros municípios de características semelhantes. Sérgio Henrique Ferreira, falecido em 2016, era médico e farmacologista. Como pesquisador, deixou um grande legado aos fármacos e aos hipertensos: de suas pesquisas com o veneno da cobra jararaca, ainda nos anos 60, derivou a descoberta do fator de potenciação da bradicinina, que levou ao desenvolvimento do captopril, um dos medicamentos mais utilizados para o combate à pressão alta. Mozart Ramos, doutor em química pela Unicamp e pós-doutor pela Politécnica de Milão, foi reitor da Universidade Federal de Pernambuco e secretário de Educação do mesmo estado. Como diretor do Instituto Ayrton Senna notabilizou-se por expandir fronteiras de atuação da instituição e pela criação de iniciativas como a Rede Nacional de Ciência para a Educação, com forte apoio às pesquisas em neurociência, entre outras áreas. No final do ano passado, no âmbito do CNE, foi o relator do parecer 22/2019, que tratava das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica, instituindo também a Base Nacional Comum para a formação. Publicado em 15/01/2020

  • Sucesso na avaliação do público em 2019, a peça Inferno, um interlúdio expressionista, adaptação de texto do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams (Not about Nightingales, 1938), está de volta a São Paulo, de 27 de janeiro a 18 de fevereiro. O espetáculo será encenado às segundas e terças-feiras, às 21 horas, no Viga Espaço Cênico (Rua Capote Valente, 1323, Pinheiros, tel. 3801-1843, perto do Metrô Sumaré, linha verde). Escrito a partir de um episódio verídico ocorrido na Pensilvânia, Estados Unidos, nos anos 30 do século passado, o texto retrata o universo de maus tratos em uma prisão sob a direção de um corrupto e arbitrário representante do Estado. A peça ganhou o prêmio de melhor estreia de 2019, pelo voto popular, no Guia da Folha, e foi indicada ao Prêmio Shell de melhor direção (André Garolli). Texto Publicado em 15/01/2020

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