Na escola, prevalece a ideia da arte como consumo

Para o psicólogo Lino de Macedo, é preciso que haja uma perspectiva de fruição artística, assim como para o autoconhecimento do corpo

Foto: Steve Johnson/Iso Republic

Texto publicado em 20/01/2020

Com o intuito de incentivar uma educação integral, voltada à oferta de uma formação mais equilibrada e menos utilitarista, o economista Flávio Comim, da Universidade de Cambridge, selecionou e coordenou um grupo de estudantes de sua instituição na realização de um levantamento em periódicos especializados em educação e disponíveis on-line naquela universidade nos últimos dez anos.

O recorte escolhido centrou-se na importância das artes e da educação física na formação dos estudantes, dois campos que, de certa maneira, representam contrapontos às áreas mais centradas no processo de desenvolvimento cognitivo, como o ensino de língua, matemática e das disciplinas de ciências da natureza.

Por ocasião do lançamento da publicação de Comim – Artes e esportes – Relação com o desenvolvimento humano integral –, o Itaú Social, solicitante e patrocinador da iniciativa, promoveu um seminário sobre o tema, reunindo o próprio Comim, a neurocientista Adele Diamond, da Universidade British Columbia, no Canadá, e o professor Lino de Macedo, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Após a realização do seminário, ocorrido em dezembro de 2019, Trem das Letras conversou com Lino de Macedo acerca de sua visão sobre o espaço que as artes e a educação física ocupam hoje na escola, suas limitações e os desvios a que suas práticas estão sujeitas em função daquilo que é demandado às escolas.

Especializado na obra do biólogo e epistemólogo suíço Jean Piaget, Macedo é graduado em pedagogia e mestre, doutor e livre-docente em psicologia. É professor aposentado do Instituto de Psicologia da USP, onde ainda dá aulas e orienta pesquisas no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano. É muito conhecido por seus trabalhos sobre jogos e quebra-cabeças como ferramentas de observação do comportamento e proposição de problemas.

Macedo ressalta o fato de que uma das funções da escola que mais ganhou proeminência e, por consequência, mais força na visão que a sociedade tem da escola, é a de preparar os alunos para o mundo do trabalho. Por isso, a sua função instrumental é ressaltada, ou seja, ela é vista primordialmente como um meio para ensinar técnicas, tem uma função de capacitação, de formação dos alunos para o mercado de trabalho, para a produção etc.

Não que essa não seja uma das funções da escola. Mas não é a única e não pode obscurecer o contato a ser propiciado ao estudante com diversos aspectos do conhecimento e da cultura, sem vê-los apenas como pontes para que seja um bom profissional. Ou, às vezes, nem isso, já que há desejo de subtrair parte da herança cultural da sociedade do ambiente escolar. A própria pesquisa de Flávio Comim é uma reação para enfatizar a importância de uma formação integral, em que dimensões como arte e educação física não sejam postas de lado em benefício daquilo que é visto como mais útil ao desenvolvimento cognitivo, questão à qual ambas também respondem. Leia, a seguir, a visão de Lino de Macedo sobre o tema.

A escola tem dificuldade de pensar um currículo menos instrumental e mais humanista?

Essa dificuldade de a escola pensar coisas diferentes [de sua função instrumental], não se reflete só no contexto da arte, mas em várias outras coisas. Por exemplo, a leitura. Não é entendida no sentido de fruição, de ler porque é gostoso ler. A apreciação estética não justifica a leitura [no âmbito da escola]. Você lê porque cai na prova, porque o professor mandou, porque tem de fazer um resumo, aprender conceitos. Você não lê pelo prazer do ler, pela apreciação, pelo sentido da fruição, pelo prazer funcional da leitura. Contar uma história bem contada, por exemplo. É sempre como se você tivesse de justificá-la como um meio para algo de outra ordem. Isso vale para a arte como um todo. Ela não tem um sentido de apreciação estética, autojustificada. Hoje se justifica a arte em razão da desmotivação dos alunos, porque eles acham a escola uma chatice. Isso vale para tudo. O prazer da argumentação em uma discussão, a reflexão, no sentido da filosofia, com um jogo de argumentos em que você está exercitando o prazer do argumentar, de defender uma perspectiva, de aceitar a perspectiva do outro, também não é trabalhado dessa forma.

Como a arte tem sido trabalhada pela escola?

No fundo, [o que prevalece] é a ideia de arte como consumo. Na escola, esse consumo é justificado. A arte é boa porque desenvolve as funções executivas, porque desenvolve o raciocínio, mas não tem o sentido de uma realização humana. Num país como o nosso, pobre, contraditório, as pessoas vivem muito pela sobrevivência, para arrumar um lugar digno para morar, um trabalho que seja minimamente decente para sobreviver. E arte não tem valor de sobrevivência, ela tem valor de fruição da vida, de desfrute, de ócio. O ócio no sentido de não ter de se preocupar com a comida, com aprender porque vai cair na prova, porque desenvolve o cérebro, e sim para curtir uma realização humana que te dá gosto, que permite pensar nas cores, no jogo das formas.

É uma questão que está ligada ao fracionamento do conhecimento?

Temos algumas disciplinas, algumas  áreas que cuidam do todo, como é o caso da filosofia, das artes, da religião, da literatura, ou seja, elas trazem o ser humano na sua totalidade. Claro, todas as artes trabalham com competências gerais, com a integração. A ciência, no sentido estrito do termo, trabalha uma parte, uma parte sofisticada, que é a do conhecimento científico, a matemática e suas áreas, álgebra, topologia, algoritmo, aritmética, geometria etc. A língua portuguesa com a gramática, a sintaxe… Já na arte, sem querer, você encontra problemas humanos refletidos de uma forma bonita, e não de uma forma dirigida, proposital. No jogo, na atividade lúdica, você descobre sua intolerância, sua baixa autoestima, ou, de forma positiva, sua capacidade de se concentrar. E a escola, até porque recebe muitas demandas de desempenho, é questionada sobre como usa o dinheiro etc., acaba ficando muito preocupada em justificar internamente esses objetos, e não o próprio valor deles. É como se você tivesse de justificar não o sentido interno [da atividade], mas externamente: porque a pessoa fica mais inteligente, desenvolve funções executivas, mas não a arte no seu sentido pleno mesmo, do encontro do ser humano com a beleza, a estética, a cor, a forma, o gosto, como uma criação que se justifica por si mesma.

No caso da educação física, ela lida com o corpo, que carrega as nossas expressões em relação ao desejo, numa visão mais psicanalítica. E, em outra dimensão, permite que introjetemos a ideia de disciplina, autodisciplina, de superação dos próprios limites.

Esse poderia ser o encanto da educação física na escola. A escola ganhou uma feição muito cognitivista, racional. Pela educação física, o corpo ganha lugar na escola. O corpo em seu sentido pleno, o corpo enquanto movimento, enquanto forma de você se encontrar com as coisas ou de fazer coisas, o corpo enquanto autodomínio, equilíbrio, flexibilidade, enquanto autonomia mesmo, o domínio do corpo. A criança pequena, por exemplo, tem como grande desafio dominar o corpo, aprender as habilidades corporais, para poder fluir na vida, como pegar, levantar, esconder, andar, correr, pular, fazer xixi, fazer cocô, tomar banho. Tudo isso está muito impregnado de habilidades motoras, corporais. E de satisfação do desejo. Através do corpo, a criança realiza atividades básicas, aquilo que lhe faz falta. Ela aproxima, ela passa, protege, colhe, pula, dança, faz um monte de coisas.

Nesse sentido, a educação física é uma realização humana que trás o corpo para dentro da escola. Por outro lado, a educação física ganhou muito essa coisa de malabarismo, de competição. Você tem, de um lado, um aluno que é quase um espectador das grandes proezas do colega, aquele aluno desajeitado, ou não habilidoso que observa o colega habilidoso se apresentar. Então você tem um corpo que observa e consome, mas que não tem lugar. Na verdade, qualquer corpo, gordo ou magro, é o corpo da pessoa e deve ter lugar. O desejo fica meio que preenchido indiretamente. Eu observo o outro tendo um grande desempenho, ganhando uma competição, demonstrando grandes habilidades, e fico como plateia quando deveria ser ator também. Ou seja, um recurso como a educação física, que poderia ter um lugar maravilhoso na escola, que seria o de dar ênfase à motricidade, às atividades do corpo, acaba perdido. Ou aluno fica como espectador, ou mal tem tempo de realizar isso na escola, pois a escola é muito intelectual nesse sentido. Mesmo no âmbito da educação física, esse lado competitivo, consumista, muito presente na nossa sociedade atual, também é muito forte.

Entre os impactos positivos da educação física que a publicação menciona está a capacidade de os estudantes aprenderem a liderar por meio do esporte. Não há uma idealização da liderança em curso? Todos podem ser líderes?

Tenho lido o filósofo coreano Byung-Chul Han, que escreveu A sociedade do cansaço [Editora Vozes, 80 páginas]. Em um dos capítulos, ele fala, criticamente, da sociedade do desempenho. É impossível todos serem líderes. Não é nem possível nem desejável. A liderança possibilita que outras pessoas se organizem em torno dela.

Numa sociedade em que todos têm de ser líderes e ter alto desempenho, todo mundo teria de ser protagonista. Não dá. Por isso é preciso lidar com a diversidade. [Ao longo da história], o que se critica é que temos uma grande maioria primeiro de escravos, depois de operários, agora de desempregados, gente sem lugar na sociedade. No caso da pesquisa do Flávio Comim, o objetivo foi fazer uma meta-análise sobre o que existe, uma reunião do que há disponível em termos de pesquisas [em relação às artes e à educação física na escola], sem um olhar mais crítico. Tem mais esse caráter de levantamento do que há disponível.

Estou pessimista com relação ao quadro do Brasil de hoje. Os jovens não querem ser professores. Há uma expectativa social e um grande investimento de recursos na escola, mas os professores são mal pagos, a estrutura é ruim, há dificuldades diversas. A escola ficou com a função de substituir outras instituições sociais, como a família, a igreja, os espaços públicos. E a escola não tem tempo para refletir sobre esse lugar onde estão pondo a escola. O burnout de professores só não é maior do que na enfermagem, outra profissão em que há muitas exigências.

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Curtas

  • A organização da tradicional feira Bett Educar anunciou na última quarta-feira, 25 de março, o adiamento do evento neste ano. A Hyve Eventos, empresa organizadora ainda não sabe quando o evento será realizado. A data anterior era de 12 a 15 de maio, mês em que a feira costuma acontecer. O adiamento, obviamente, é consequência da pandemia do Covid-19. O tema deste ano será “A educação de hoje nos prepara o futuro?”. A programação está dividida em quatro grandes áreas: gestão, tecnologia, formação de professores e políticas públicas. Informações sobre ingressos e programação estão disponíveis no site do evento. Texto publicado em 27/03/2020

  • De um total de 1,3 bilhões de jovens entre os 15 e os 24, população estimada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) nessa faixa etária, aproximadamente 267 milhões deles não trabalhavam e nem estudavam em 2019. A estimativa consta do relatório “Tendências Globais de Empregos para Jovens”, lançado pela entidade no último dia 9 de março. O número é levemente mais alto do que o registrado em 2016 (259 milhões, ou 3,08%). A previsão, no entanto, é que o número cresça para 273 milhões em 2021. Um dado preocupante é a desproporção entre homens e mulheres que não estudavam ou trabalhavam no ano passado: as mulheres eram 69,8% do total, ou seja, 181 milhões. Publicado em 12/03/2020

  • Do contingente total de 1,3 bilhão de jovens entre os 15 e os 24 anos, mais da metade (770 milhões) não estão entre aqueles considerados como força de trabalho (empregada ou não), ou seja, não estão procurando trabalho ou não se encontram disponíveis para trabalhar (muitos deles em razão de estarem estudando). É o que diz o relatório “Tendências Globais de Empregos para Jovens”, lançado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) no último dia 9 de março. Efetivamente trabalhando, há 429 milhões de jovens, além de outros 68 milhões tidos como desempregados (totalizam 497 milhões de jovens). O desemprego médio é de 13,6%, mas é muito variável de região para região. Na América do Norte, por exemplo, é de 9%; na África, de 30%.  Entre os empregados, no entanto, 55 milhões (13%) vivem em condição de extrema pobreza, ou seja, com menos de US$ 1,90 por dia (algo em torno de R$ 9,20 em 12 de março). Outros 17% vivem em condição moderada de pobreza, com até US$ 3,20 por dia (R$ 15,50/dia). Apesar de ainda alto, o número daqueles que se encontram em extrema pobreza caiu 20 pontos percentuais entre 1999 e 2019. As regiões que ainda apresentam índices muito alto de extrema pobreza entre os jovens são a África Subsaariana e os estados árabes. Publicado em 12/03/2020

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